SANTA MARIA – ENTREVISTA COMPLETA AO EXPRESSO

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A casa às costas

Santamaria: “Comecei a namorar aos 13 anos, aos 16 adotei a primeira
filha e assinei pelo Sporting por 10 anos. Hoje sou fiscal da Emel”

À primeira vista tem um ar duro, de quem pode partir tudo e todos a
qualquer momento, mas Ricardo Duarte, mais conhecido por Santamaria, tem
coração grande, que começou a encher de amor ainda adolescente. Aos 13
anos já conhecia aquela que se tornou na mulher da sua vida; aos 16
levou para casa uma afilhada por não suportar ver os maus tratos a que
era sujeita. Casou, teve dois filhos biológicos, o Tiago e a Bruna, que
jogam futebol; lutou pela guarda legal da afilhada e transformou-se em
fiscal da Emel. Esta é a historia do mais jovem jogador de sempre do
Sporting a estrear-se na equipa principal. Uma grande esperança que só
não o foi para o futebol. Que o diga a Andreia

Alexandra Simões de Abreu

25.01.2020 às 8h30

Nuno Botelho

Já caiu na falésia do amor?
Já.

Sabe porque estou a perguntar isto?
Não.

Porque é o refrão de uma música dos Santamaria, uma banda musical de 1998. A sua alcunha não vem daí?
Conheço o grupo, mas a minha alcunha não tem nada a ver com eles. O
Santamaria vem da parte do clube onde eu jogava quando era pequeno. Na
altura em que fui para o Sporting havia muitos Ricardos e o mister
Osvaldo Silva tinha muito a mania de pôr alcunhas. Como eu vinha do
clube Santa Maria, fiquei Santamaria. Desde aí, adotei sempre o nome e
toda a gente me trata por Santa (risos).

Nasceu em Lisboa. Onde cresceu? Tem irmãos?
Cresci na Urmeira, que fica entre a Pontinha e Odivelas. Tenho uma irmã
dez anos mais velha. Os meus pais sempre foram trabalhadores humildes
com poucas posses. O meu pai era polidor de metais e a minha trabalhava
com malhas.

Como era a Urmeira?
Era uma zona
pobre, muito problemática, depois deixou de o ser. Infelizmente, tive
alguns casos da minha família metidos na droga, que felizmente
conseguiram recuperar. Mas é um bairro muito bom, de que gosto muito.

Quando se fala a de infância qual é a primeira memória que lhe vem à cabeça?
É estar a brincar na rua. Poder brincar livremente na rua, com os meus
primos, os meus amigos. É aí que começa o futebol, aliás.

Torcia por algum clube?
Torcia pelo Benfica.

Tinha ídolos?
Tive mais tarde, quando iniciei a vida de futebolista. Era o Fernando Redondo, argentino. E o Rui Costa. Mas mais o Redondo.

Da escola, gostava?
Nada. A escola também não gostava nada de mim.

Fugia às aulas para ir jogar?
Também. Depois há a fase em que se começa a namorar.

Santamaria quando foi para o Sporting com nove anos fez questão de tirar foto junto do leão
Santamaria quando foi para o Sporting com nove anos fez questão de tirar foto junto do leão D.R.

Quando é que começa a namorar?
Eu conheci a minha esposa, a Vera, com 13 anos. Comecei a namorar com
ela nessa idade. Ela é um ano e meio mais velha do eu. Conheci-a na
escola e até agora estamos juntos. Havia histórias engraçadas na escola
por causa do nosso namoro. Eu tinha aulas num andar e ela no outro, mas
dava para vê-la da janela. Sempre que ela não tinha aulas, eu conseguia
ver, perguntava à professora se podia ir à casa de banho e ela já sabia o
que era e dizia: “Podes ir, mas antes de tocar estás cá, está bem?”
(risos). Namorei 10 anos com ela e estamos casados há 16.

Quando desiste da escola?
Completei o 9.º ano. Tentei fazer mais à noite, mas com os treinos e os jogos era impossível.

Explique lá como vai parar a esse tal clube Santa Maria?
Fui parar ao União Desportiva e Recreativa de Santa Maria, que é do meu
bairro, salvo erro, com sete anos. Todos os meus amigos jogavam lá.
Joguei contra o Sporting, levei 14 ou 17 a zero, eles eram mais velhos
do que eu. Depois surgiu a oportunidade de ir treinar ao Sporting.

Como é que surge essa oportunidade?
Através do pai do Carlos Fernandes, jogador do Sporting mais velho do
que eu que jogou no Braga e no Farense. Ele jogava no Sporting. Aliás,
chegou ao pé de mim o senhor Aurélio Pereira, com o pai do Carlos
Fernandes, a perguntar se eu queria ir treinar ao Sporting. “Quero”.
Apesar de ser do Benfica queria ir ao Sporting, obviamente. Fui treinar
ao Sporting, tinha uns nove anos, mas foi muito complicado.

Porquê?
O meu pai não tinha possibilidade de me levar aos treinos. Não é como
agora, todos os pais levam os meninos aos treinos. Também a sociedade
assim o obriga, falo por mim. Na idade do meu filho, que tem 15 anos,
fazia praticamente tudo sozinho; hoje em dia, não. Mas como estava a
dizer, fui treinar ao Sporting e desisti porque era muito cansativo. Eu
ia a pé para a escola da Pontinha, saía da escola tinha de apanhar o
autocarro para o colégio militar, dali passava a ponte e apanhava o 50
para o Campo Grande. Depois, tinha de fazer o caminho inverso. As
camionetas nessa altura vinham de hora a hora, se falhasse uma, tinha de
esperar uma hora. Então, desisti. Só que entretanto, o senhor Aurélio e
o pai do Carlos Fernandes foram novamente a minha casa para saber o que
se passava e lá arranjaram condições. A partir daí, assinei pelo
Sporting e nunca mais saí.

Assinou o quê?
Um contrato de vinculação. Nessa altura só pagavam o passe. Tínhamos só o equipamento. Fiz a formação toda no Sporting.

Notou muita diferença do Santa Maria para o Sporting?
Sim, não tem nada a ver. Muito mais qualidade dos jogadores, mais exigência, mais compromisso.

A posição em campo já estava definida ou só no Sporting é que se torna defesa central?
Já vinha do Santa Maria. Sempre me puseram ali e ali fiquei.

Na seleção de Lisbooa, com 13 anos
Na seleção de Lisbooa, com 13 anos D.R.

Ainda é o mais jovem de sempre a ser chamado à equipa principal do Sporting?
Sim. Julgo que nos livros do Sporting diz que é o Caneira, mas não é.
Sou eu. Não sei se houve algum lapso. Eu tinha 16 anos. Fui chamado pelo
Jozic e joguei contra o D. Chaves.

Como foi?
O mister Venâncio foi meu treinador dos juvenis, mas entretanto passou
para equipa principal com o Jozic. Deve ter dedo do mister Venâncio.
Tive de fazer contrato profissional e deixar de jogar com os juvenis.
Quando não ia aos seniores, jogava pelos juniores, já não podia jogar
pelos juvenis.

E o impacto de entrar no balneário sénior, foi difícil?
Muito difícil. Muito acanhado. Para tomar banho, eu chegava, via qual
era o chuveiro que estava vazio para poder entrar. Nas concentrações, se
fosse para lá estar à uma da tarde eu já estava lá a um quarto para a
uma para não haver problema. Era o primeiro a chegar ao autocarro, mas
era o último a sentar-me. Eles têm os lugares definidos, eu entrava no
fim via um lugar vazio mas perguntava “posso sentar-me?”.

Houve algum que tenha sido mais simpático ou, pelo contrário, mais carrancudo consigo?
Simpáticos foram todos, mas principalmente o Beto Severo. A mãe dele
foi minha contínua na escola e como éramos mais ou menos da mesma zona
da Pontinha… Ainda chegou a dar-me boleia para a Pontinha.

Estava a contar como foi a sua estreia.
Sim, fui convocado várias vezes, mas nos dois jogos que fui para o
banco, entrei. Foi em Chaves, a primeira vez, e depois foi em casa com a
Académica. Em Chaves, um frio de rachar, jogo à noite, salvo erro,
estava 2-2, estava a aquecer com outros jogadores no início da
segunda-parte. A determinada altura começam a fazer sinais do banco.
Levantavam o braço e diziam “embora”. Eu olhava e apontava para o lado:
“é ele?”. “Não, és tu, embora”. Mas mal se ouvia e eu: “É aquele?”.
Nunca pensei que fosse eu. Quando percebi que era eu, ia a tremer tanto,
não sei se era do frio se era dos nervos. Foi uma sensação única.
Entrei para defesa direito, na altura era o Patacas que estava a jogar.

Lembra-se se correu bem?
Correu, acho que correu muito bem, apesar dos nervos que eu tinha
(risos). Na época a seguir, mudou o treinador e voltei aos juniores.

Ficou chateado?
Não. É fácil chegar lá acima o difícil é manter-se lá em cima. Temos de
saber que um passo atrás não significa que não conseguimos chegar lá
acima outra vez. Eu tento passar esses valores para os meus filhos. Eles
às vezes ficam chateados porque não jogam, mas faz parte. Isto é um
desporto muito cruel. É muito bom, quando corre tudo bem, mas é difícil
chegar lá acima e ficar, tem de se sofrer muito. O suporte familiar
também ajudou muito, apesar de serem pessoas muito humildes. Lembro-me
que, em minha casa, havia só um quarto, que era dividido ao meio. Metade
era dos meus pais eu ficava do outro lado. A minha irmã dormia na sala,
num sofá-cama. Não sei se foram os valores que me foram transmitidos
que me fizeram suportar aquilo, mas não fiquei nada triste. Continuei a
fazer o meu trabalho. Depois fui para a equipa B, eu e o Hugo Machado,
éramos os capitães. Curiosamente parecia que era de propósito: eu era
expulso, ele jogava, depois era ele expulso, jogava eu (risos).

Era expulso porquê, ferve em pouca água?
Também. Agora muito menos, temos de aprender com os erros.

O que é que o fazia explodir rapidamente?
Qualquer coisa que não me agradasse (risos).

Santamaria no Sporting, com 14 anos
Santamaria no Sporting, com 14 anos D.R.

Insultava ou era agressivo também de forma física?
Agressivo, sempre fui a jogar a bola. Não com maldade, mas agressivo.
Uma vez disseram-me: “Mais vale que chore a mãe dele do que chore a
tua”. Pessoas mais velhas no mundo do futebol sempre me disseram: “Não é
com maldade, mas sê agressivo. A agressividade nunca fez mal a
ninguém”. Obviamente que, se és mais agressivo e o outro vai atacar a
bola mais mole, ele vai-se lesionar. E aconteceu um episódio assim
quando estive na Lourinhã.

Pode contar?
Foi
num jogo treino contra o Ericeira. Um lance, a bola vem metida para
trás, eu vou ao encontro da bola, faço carrinho – e eu tinha umas
caneleiras de carbono, pareciam quase umas caneleiras do hóquei, com 16
anos, fui obrigado a fazer aquelas caneleiras – e conforme fiz o
carrinho, o outro vem, ele tinha umas caneleiras curtinhas, chocámos,
ele saltou e infelizmente partiu a tíbia e o perónio. Quando saltou por
cima de mim o pé já ia pendurado. Mas não foi uma coisa de maldade, foi
um lance, só que ele bateu na minha caneleira que era muito mais forte.
Os miúdos agora usam caneleiras muito pequenas.

Foi prejudicado por causa desse lance?
Não. Se calhar quem foi mais prejudicado foi o miúdo. Mas por causa da irmã.

Explique lá isso.
Porque acabou o treino, o miúdo foi transportado para o hospital de
Torres Vedras, eu fui logo para lá para saber o que se passava com ele,
preocupado. Ele foi transferido para Loures, fui vê-lo lá. Foi operado,
depois da operação fui vê-lo. Falei com ele, disse-lhe: “Tudo o que
precisares, eu tenho alguns conhecimentos, tenho pessoas que trabalham
bem para a recuperação, eu vou-te ajudar”. À saída, a irmã, infelizmente
disse que eu era o culpado, e isto e aquilo, que tinha feito de
propósito. E eu: “Peço desculpa, mas a partir de agora não me liguem
mais, que eu não vou ajudar.” Pedi desculpa ao miúdo e disse-lhe
agradece à tua irmã, mas eu não vou fazer mais nada.

Voltemos atrás. A seguir ao Jozic veio o Inácio. Jogou com ele?
O Inácio pega na equipa, tive uma conversa com ele num corredor da
Academia. Cruzámo-nos e ele diz: “O objetivo que temos é treinares com a
equipa principal, quando não fores convocado, jogar na equipa B, mas
estás sempre a trabalhar connosco”. O que aconteceu com o Inácio é que
treinei dois dias com a equipa principal nessa época.

Então?
Não sei, tudo mudou.

Mas ele não o chamava para ir treinar na equipa principal?
Não, treinava na equipa B. Continuei a fazer o meu trabalho. Mas as
palavras que me lembro foram: “Vais treinar com a gente, quando não
tiveres oportunidade e não fores convocado vais para a equipa B”.

Santamaria guarda um recorte de jornal da sua estreia na seleção de sub-15
Santamaria guarda um recorte de jornal da sua estreia na seleção de sub-15 D.R.

Estava com 18 anos. Já tinha casado, tinha filhos?
Com 18 anos já tinha a minha filha adotada. Eu adotei a minha filha Andreia, com 16 anos.

Quando diz adotar, com 16 anos… Pode explicar a situação?
Eu e a minha esposa conhecemo-nos na escola, estávamos sempre juntos à
noite no café, e assim. Tínhamos uma amiga em comum, cuja madrasta
estava grávida. Começaram com coisas: “Tu e a Vera vão ser os padrinhos
da menina” e aquilo começou a mexer. Felizmente, com 16 anos já tinha um
ordenado e decidimos ser padrinhos mesmo. Só que os pais biológicos da
Andreia tinham muitas dificuldades. Em termos de limpeza era horrível – o
pai, que já faleceu, era alcoólico, e a mãe trabalhava nas limpezas,
mas deixava muito a desejar na limpeza da própria casa.

Mas ainda vivia em casa dos seus pais, certo?
Sim, depois comecei a dormir em casa da minha namorada, não dormia
junto com ela, mas dormia em casa dela. E começámos a levar a Andreia
para passar o fim de semana connosco. Ao fim de semana estava sempre
connosco. Durante a semana estava com os pais. Quando chegava o fim de
semana a seguir, a menina vinha sempre toda suja, toda mordida das
pulgas, era uma coisa horrível. Começámos a pensar e dissemos: vamos
fazer ao contrário, vamos arranjar uma escolinha para a menina, uma
creche, para ver se ela começa a desenvolver. Porque a Andreia à
nascença teve logo um problema.

Que problema?
Depois de sair na maternidade ia ao colo da avó, foi atropelada, caiu,
bateu com a cabeça no lancil e ficou com um traumatismo, que a afetou.
Tinhas muitas convulsões quando estava com os pais… Uma série de
problemas, devido à má alimentação, à sujidade… Depois fizemos ao
contrário, arranjamos escolinha e ela ficava durante a semana connosco.
Ela nasceu em 1998. Eu com 16 anos já lhe mudava as fraldas, se a minha
mulher estivesse na escola e eu não tivesse aulas à tarde, ia buscar a
menina dava-lhe banho, vestia-a e ela ia comigo para todo o lado, andava
a passear comigo.

Os pais nunca se opuseram?
Nada. Tinham mais dois filhos. Depois, em 2002/2003 fui jogar para o Marco de Canaveses.

Santamaria também guarda um recorte de jornal com a noticia da sua estreia na equipa principal do Sporting
Santamaria também guarda um recorte de jornal com a noticia da sua estreia na equipa principal do Sporting D.R.

Quem decide que vai para lá? Como surge?
Apareceu o responsável do Marco com um empresário.

Tinha empresário?
Na altura tinha: era o Veiga. Falei com o Veiga, falei-lhe da proposta,
ele disse que achava que era uma coisa boa, II Liga: “Vais aprender
vais evoluir, acho que não perdes nada em ir”. Na equipa B jogávamos na
II divisão B. Cheguei a casa falei com a Vera e disse-lhe: “Vamos para o
Marco de Canaveses”. “Então e a menina?”. Falámos com os meus sogros, a
minha sogra sempre foi uma segunda mãe para mim. Ela só perguntou à
Vera: “É isso que tu queres para a tua vida? Se é, a gente apoia. Em
relação à menina não te preocupes que eu fico responsável por ela”. E
nós lá fomos, mas todos os fins de semana vínhamos para baixo assim que
acabava o jogo.

A Vera nessa altura o que fazia?
Estava a trabalhar numa loja de eletrodomésticos na Damaia. Despediu-se
e foi comigo.Vínhamos todos os fins de semana ver a Andreia. Quando
havia interrupções na escola a minha cunhada apanhava o comboio e levava
a Andreia para cima e ficávamos lá todos. No fim de semana vínhamos
todos para baixo.

Como foi o embate de começar a jogar na II Liga?
Uma aprendizagem muito boa. Fomos dois do Sporting, eu e o Mateus, um extremo angolano.

E o balneário do Marco?
Tranquilo. Fui muito bem recebido. A época correu bem. Tive colegas
espetaculares. Tivemos reuniões com o Avelino Ferreira Torres, porque
ele não queria pagar. E a confusão que tive com ele foi por causa disso.

Recorde.
Quem me pagava era o Sporting, mas estávamos todos no auditório e ele
começa a dizer: “Faltam quatro meses para acabar mas eu não vos vou
pagar”. Aquilo começou a mexer comigo, eu estava lá em cima no
auditório, e às tantas disse: “Presidente, desculpe lá, não concordo”.
“Não concordas?…” E começou aos gritos. Venho por ali abaixo, direito a
ele: “Ouça, escusa de estar aos gritos porque eu não tenho medo de si”.
“Tu nem devias falar, porque nem recebes do clube. Queres que diga o
teu ordenado aqui aos teus colegas?”. “Isso é um problema que não é seu,
mas se quiser dizer, diga, que não tenho problema nenhum. Você paga-me
alguma coisa? Volto a dizer, não concordo, os jogadores estão aqui, têm
família, têm de ter dinheiro até ao fim”. Cara a cara. Aquilo lá
acalmou.

Casou quando?
Casei em 2002. No ano em que estava no Marco de Canaveses.

Qual foi o seu primeiro carro?
O meu primeiro carro era o carro que foi da minha irmã e depois andei
com o da minha esposa. Eu conduzi três anos sem carta (risos). Com 16
anos ia para o Sporting de carro, eu aprendi a conduzir muito cedo.
Arriscava. Coisas que agora não se podem fazer. Mas o primeiro carro que
comprei foi um Audi A3, preto com teto de abrir. Isso foi quando fui
para o Marco. Curiosamente, na semana a seguir parti o pára-choques, no
Marco.

Como?
Vinha a andar, parei num STOP,
não vinha carro nenhum, quando arranquei apareceu um carro de repente. O
Audi tinha um bocado de ferro no pára-choques, agarrou no friso da
porta da frente do outro carro e só parou cá atrás, rebentou com o carro
todo. Quando olhei para o outro carro só pensei: “Eish, parti o meu
carro todo”. Mas cheguei lá, tinha um buraco no pára-choques, o ferro à
aparecer e mais nada.

Santamaria fez um quadro com a sua foto e a do seu ídolo, o argentino Redondo
Santamaria fez um quadro com a sua foto e a do seu ídolo, o argentino Redondo D.R.

No ano a seguir ao Marco, regressa ao Sporting. Volta para casa dos pais?
Não, aí já tinha casa. A minha casa esteve fechada durante dois anos e
meio. Comprei a casa e fomos mobilando ao nosso gosto. Já estávamos a
pensar em casar, quando a comprei. Aí já tinha casa, que é onde vivo
agora, em Famões.

Veio novamente para a equipa B do Sporting. Sentiu que deu um passo atrás? Estava à espera de ir para a equipa principal?
Nessa altura do Marco de Canaveses, o Sporting foi buscar o central
João Paulo e aí senti que perdi, que não voltava à equipa principal. Mas
voltei para a equipa B, tranquilo, continuei a trabalhar. Eu tinha
feito 10 anos de contrato com o Sporting, quando fiz o primeiro
contrato.

Perdeu dinheiro.
Muito dinheiro. Mas pronto, 16 anos, quer o quê? Quem me dera saber o que sei hoje e voltar 10 anos atrás. Bastava só 10 anos.

Digamos que o Sporting não foi seu amigo, nem o Veiga para aceitar esse contrato por 10 anos…
… Eu nunca tive sorte, nos empresários nunca tive sorte.

Teve outro empresário além do Veiga?
Sim, mas não quero falar dele, prefiro não falar. Mais um mentiroso.

Santamaria com a mulher Vera, com quem começou a namorar aos 13 anos
Santamaria com a mulher Vera, com quem começou a namorar aos 13 anos D.R.

Nessa altura a Andreia foi viver com vocês?
Não, porque os pais fizeram força para ficar com ela, nós tivemos de
obedecer. Mas a escola da irmã mais velha da Andreia fez queixa à
Segurança Social, porque ela ia sempre toda suja, má alimentada,
desidratada. Quando soubemos que havia perigo de a mais velha ser
retirada, pensámos: se vão tirar a mais velha aos pais, vai tudo de
arrasto e a Andreia também vai. Falei com a minha advogada. Contei-lhe o
que se passava e perguntei: “O que é que a gente tem de fazer para
ficar com a Andreia?”. “Podemos entrar com processo de adopção”.
Tratámos de tudo o que era preciso, certidões, etc. não chegaram a
tirar-nos a Andreia. Mas o processo deu início e fomos à primeira
entrevista. “Então vocês querem adotar uma criança?”. “Não, não queremos
adotar uma criança. Nós queremos adotar aquela criança”.

E depois?
Disseram-me que havia vários processos, que ia ser difícil, etc. E
deram-me um monte de folhas para preencher, parecia que estava a
escolher um carro. Se queria com olhos azuis, se queria preta, amarela
ou azul, se era loira, se era castanha, tudo e mais alguma coisa,
parecia que estava a escolher um carro; do estilo, “olha quero um carro
branco, com jantes especiais, com teto de abrir, vidros fumados…”
Parecia mesmo. Trouxe aquilo para casa, falei com a advogada, que disse
que eram processos… Cheguei lá e entreguei aquilo em branco.

O que lhe disseram?
Perguntaram se não preenchia e eu respondi: “Não, já vos disse que eu
quero aquela criança. Ela chama-se Andreia Filipa Rodrigues da Costa.”
(Ela depois mudou de nome para Ribeiro Duarte que é o nosso nome).
Resolveram fazer outra apresentação. Vieram a casa ver se tínhamos
condições. Nós já tínhamos os nossos dois filhos biológicos. Vieram ver
como é que eles se davam, como se comportavam.

Depois de uma passagem pelo Marco de Canaveses, Santamaria(à esquerda) volta a sair do Sporting, para o Estrela da Amadora
Depois de uma passagem pelo Marco de Canaveses, Santamaria(à esquerda) volta a sair do Sporting, para o Estrela da Amadora FRANCISCO LEONG

Vamos voltar atrás então para nos contar quando nascem os filhos biológicos.
O Tiago nasce em 2004 e a Bruna em 2006. Não assisti aos partos, porque
foram ambos de cesariana. O do Tiago tem uma história gira.

Conte.
Fui treinar na equipa B, sábado de manhã, cheguei ao treino e o Machado


[colega de equipa]

não apareceu. Telefonei-lhe e ele disse: “Estou na
maternidade, vou ser pai”. “Ok, boa sorte, depois quando nascer diz
qualquer coisa”. Acabou o treino, fui para casa. Almoçámos, depois do
almoço fui lá para fora fumar um cigarro – na altura eu já fumava – e
disse para a Vera: “Vamos ao café?”. “Vamos, deixa-me só ir à casa de
banho”. Foi para a casa de banho e nunca mais. Fui ter à casa de banho e
ela: “Olha, liga para o Vítor (que era o nosso médico) que acho que
estou a perder água”. Lá fomos para a maternidade, com uma grande calma.
Disseram-me: “Isto ainda está demorado, pai. Vá para casa e mais daqui a
pouco ligue”. Fui para casa da minha sogra buscar o saco da roupa.
Jantei. Fui ao café, vim do café, cheguei junto da minha sogra e disse:
“Como é que é? Vou ver o meu filho a nascer, você vem ou fica?”. Cheguei
à maternidade, passado meia hora, e chamaram pelos acompanhantes da
Vera. Cheguei junto da pessoa e ela: “Pode subir, parabéns, foi pai”
(risos). Ou seja, não tive stress nenhum. E isto para chegar à conclusão
que o Tiago tem menos um dia do que o filho do Hugo Machado, que é o
padrinho da minha filha.

Ou seja, só depois de 2006 é que adota a Andreia.
Sim, legalmente, mas ela já estava connosco a maior parte do tempo.

Entretanto, foi chamado pelo Fernando Santos à equipa A do Sporting.
Sim, fiz um jogo.

Que tal foi ele consigo?
Nada de especial. Sempre com aquela cara fechada normal dele ainda,
raramente o vemos a rir, muito exigente. Boa gente, fala tranquilo, mas
sempre com aquela aparência de quem está chateado com o mundo. Fui
chamado para irmos ao Nacional, um dia antes. Treinámos de manhã,
viajámos, jogámos à noite, voltámos e treinei, mais nada. Empatámos 3-3
com o Nacional. E voltei para a equipa B.

Ainda tinha esperança de chegar à equipa principal do Sporting?
Sim, tinha esperança. Eu iniciei muito cedo. Se calhar aos 16 anos foi
cedo demais. Na altura, o poder de compra era maior do que agora e se
calhar por isso hoje é muito mais fácil chegar à equipa principal do que
antes. Agora apostam muito mais na formação.

Santamaria tem um quadro com fotos suas da altura em que esteve no Estrela da Amadora
Santamaria tem um quadro com fotos suas da altura em que esteve no Estrela da Amadora D.R.

E seleção?
Fiz as seleções todas desde os sub-15 aos sub-21. Havia sempre a
rivalidade entre os do norte e os do sul. Aliás, o mister Agostinho
Oliveira fazia sempre um joguinho com os do norte contra os do sul. Eu
era de 1982, mas estive sempre com os de 1981: Ricardo Costa, Bruno
Alves, Cândido Costa, Makukula.

Histórias dessa altura, não tem?
Uma vez estávamos na seleção e no corredor do hotel, de repente,
apareceu o Cândido Costa só de boxers, meias e botas, a correr. O Jorge
Ribeiro estava ao fundo do corredor, o Cândido a correr, pum, pum, por
ali fora e de repente faz um carrinho e dá uma grande trancada no Jorge
Ribeiro (risos). Eles andavam sempre na brincadeira. Mas sempre tudo
saudável. O Cândido era dos gajos mais brincalhões que conheci, grande
pessoa.

Como é que vai parar ao Estrela da Amadora?
Acabou a equipa B e surgiu a oportunidade de ir para o Estrela, para a
II Liga. O Estrela tinha descido, mas tinha o objectivo de subir,
aceitei de bom grado; perto de casa, clube de Lisboa, clube histórico,
pensei: “Vou aproveitar, é mais um ensinamento para a minha carreira”.

Que tal o Toni Conceição?
Um espectáculo. Gostei muito de trabalhar com ele. Com o Toni, com o
Baltazar, o braço direito do Toni. Como jogador, o Jordão ensinou-me
muito, muito mesmo. Curiosamente também não havia dinheiro. Se for a
contabilizar o dinheiro que eu tenho por aí…

Era o Estrela que lhe pagava ou era o Sporting?
No primeiro ano era o Sporting, no segundo ano já era o Estrela.

Ficou sem muito dinheiro?
Não fiquei “a arder” na totalidade porque, depois disso, falei com o
presidente e ainda lá fui buscar algum dinheiro, mas ficou lá algum.
Chegava lá, punha o meu carro no lugar do dele, para ele ficar em brasa e
saber que eu estava lá. Nesse ano estava em Olhão e ainda fui recebendo
alguma coisa. Ele ia ao bingo buscar o dinheiro da caixa: “Toma, leva
isto”.

Dessas duas épocas no Estrela da Amadora que memórias é que tem?
Primeiro jogo, salvo erro com o Ovar, tínhamos só 11 jogadores para
jogar, porque os outros não tinham sido inscritos a tempo. Não, minto:
tínhamos 12 jogadores, o guarda-redes estava no banco, era o único, o
resto estava tudo na bancada. Fomos todos convocados, estávamos todos
naquela coisa, ninguém sabia quem é que jogava, quem é que não jogava,
tínhamos 12 jogadores, o resto estava tudo na bancada (risos). No
Estrela onde aprendi mais foi no convívio do balneário, com pessoas mais
velhas, mais vividas. Curiosamente, não recebíamos, mas todas as
semanas havia jantar de equipa para o grupo estar unido.

Saídas à noite havia muitas ou não?
Não.

Nunca foi de andar na noite?
Não, não. Gostava de ir a um bar beber um café. Um copo, não, porque a
única coisa que bebo é cerveja e Licor Beirão; não bebo mais nada.
Vinho, só se for branco ou sangria, mas é muito raro. Bebo mais é água,
estou mesmo a ficar velho (risos). E aprendi muito. E lembro-me
perfeitamente das palavras do Pedro Simões: “Querem receber? Não se
preocupem, não recebes, também não o gastas. Não tens, também não gastas
(risos), lembro-me perfeitamente disso. Tínhamos um grupo espectacular.

Outro quadro, desta vez com as fotos do SC Olhanense
Outro quadro, desta vez com as fotos do SC Olhanense D.R.

Foi para o Olhanense, mas teve um convite pelo meio da Roménia, do Cluj, em 2005/06
Sim, a Bruna ainda não tinha nascido. Acabei o contrato com o Estrela
da Amadora e fui para a Roménia. Na altura ainda ninguém sabia o que era
o Cluj. Por aquilo que me disseram, muito bom ordenado, só que havia a
parte familiar. A Andreia, o Tiago e a minha mulher grávida da Bruna.
Complicou um bocado a ida para o Cluj. Fui ao norte falar com os do
Cluj, dar a minha cara e dizer: “Infelizmente não contem comigo. O
ordenado é muito bom, o contrato é muito bom mas não posso ir por causa
disto, isto e isto”. Não podia deixar a minha esposa e a minha família
para ir para o Cluj, principalmente porque íamos entrar com o processo
de adopção da Andreia e tinha de estar presente. Entretanto, também vim a
saber que o intermediário ia ganhar muito dinheiro à minha custa.

Esse intermediário já não era o Veiga?
Não, não me lembro do nome dele. Estive reunido com ele, chamei-o à
parte e disse-lhe: “Queres ganhar dinheiro à minha pala? Eu sei que és
empresário, mas assim não”. Acho que ia ganhar uma coisa fora do normal.
E pronto, dei a cara, os gajos do Cluj foram abertos, disseram-me isto:
“Nós pagamos a passagem, vais lá com a tua mulher, vais ver como é que é
aquilo. Estás lá uma semana, observas e depois decides, se queres ou
não, se ficas ou não ficas”. Nunca apareceu essa passagem, mas pronto.
Não fui, perdi muito dinheiro, era um bom contrato, mas optei pela
estabilidade familiar.

E surge então o Olhanense?
Entretanto, era para ficar no Estrela, mudaram de treinador, o Toni
Conceição saiu, vieram jogadores emprestados do Benfica, um deles era o
José Fontes. Falei com o treinador, cujo nome não quero mencionar,
embora toda a gente vá saber quem é – Daúto Faquirá – , que teve um
conversa comigo. “Santa não é nada contra ti, mas sabes que vêm
jogadores emprestados e não vai ter espaço.” Agradeci-lhe as palavras:;
“Você é que sabe do seu trabalho, eu vou continuar a minha vida na
mesma, boa sorte, a gente há-de se encontrar por aí. Não lhe desejo nada
de mal, mas boa sorte”.

Foi viver para Olhão com a família?
Fui viver com a família, a Andreia ficou cá em cima com a minha sogra.
Piscina quase até outubro, sempre calor, sempre bom tempo, não me lembro
de ter usado um casaco para a chuva em Olhão. Entretanto, a Vera foi
para cima para ter a criança, íamos jogar contra o Olivais e Moscavide. A
Bruna foi programada para dia 11 de outubro. Foi programada porque a
Vera é asmática e sofreu muito no parto do Tiago e o médico achou
melhor. Deu-lhe duas datas a escolher, dia 1 ou dia 11 de outubro. A
Vera disse: “Eu faço a 11, o Tiago nasceu a 1 de maio, vamos para marcar
para 11 que tu também fazes anos a 11”. E assim foi. Falei com a
direcção do Olhanense e lá fui eu para cima. Estou no hospital,
chamam-me para ver a criança e o Vitor, que era o médico, disse: “Ainda
bem que a gente tirou a miúda hoje. Tinha o cordão umbilical à volta da
cabeça e já com o nó dado. Estava sujeita a ir…”. E mostrou-me.

Um quadro com fotos de Tiago, o filho de Santamaria, quando começou a jogar futebol no CAC da Pontinha
Um quadro com fotos de Tiago, o filho de Santamaria, quando começou a jogar futebol no CAC da Pontinha D.R.

Além do mister Balela, também teve como treinador do Álvaro Magalhães no Olhanense…
…Com quem tenho uma história.

Que história?
Eu já o conhecia de vista, mas nunca tinha tido nenhum contacto com
ele. A gente ia muito ao Salvador, que é um restaurante na Damaia, onde
fiz o meu casamento e ele ia lá também. E quando nos encontrávamos, era
“mister, está bom?”. Eu era jogador, ele era treinador, nada de mais.
Quando o Álvaro Magalhães entra no Olhanense, eu, o Marco Airosa e o
João Comboio estávamos para vir para baixo. Quem trazia o carro era eu,
mas era sempre o carro do Marco Airosa, porque o meu na altura era um
Smart. E era assim: “Tu dás o carro, um paga as portagens e o outro o
gasóleo, para ser mais fácil para todos”. Entretanto, entrou o Álvaro
Magalhães, que queria boleia para baixo. E eu para o Marco: “Olha queres
ver como é que se vai foder o mister? Ele tem de pagar qualquer coisa”.
(risos).

O que fizeram?
Combinámos
concentração às 11h, no Colombo. E eu: “Está tudo? Está. Então vamos
embora. Ora bem, eu pago as portagens, tu metes o gasóleo e o mister
paga o almoço.” “O almoço?!”. “Sim, você tem que pagar o almoço, então a
gente tem treino à tarde. A gente vai a esta hora que é para podermos
almoçar”. Chegámos a uma estação de serviço, parámos para ir à casa de
banho e almoçar. Todos de tabuleiro e o mister ficou para último; ele
pensava que a gente estava a brincar. Passa o Marco, passa o Comboio, e
eu: “Quem paga é aquele senhor que vem ali”. E fomos para a mesa
(risos). Chega o Álvaro, e nós: “Tem estes para pagar mister”. “Ah, não
tenho nada”. “Ai tem, tem mister, senão para a próxima fica em Lisboa ou
e então vem no seu carro. Isto tem que ser dividido por todos (risos)”.
Ficou com uma azia…

Ele não se “vingou” nos treinos?
Não, ele gostava muito de fazer um exercício que era só correr. Era um
exercício daqueles à antiga, aquilo já não se usa, mas pronto. Era fazer
aberturas: vais à pequena área voltas para trás, vais à grande área e
voltas para trás, vais ao meio campo e voltas para trás, vais à grande
área e voltas para trás, vais à pequena área e voltas para trás, vais ao
fim e voltas para trás. A mim sempre me custou muito correr, não gosto
muito de correr, mas pronto… (risos)

Santamaria também tem um quadro com fotos da filha Bruna, quando esta se estreou no CAC
Santamaria também tem um quadro com fotos da filha Bruna, quando esta se estreou no CAC D.R.

A
seguir foi para Espanha, para o Ponferradina, a primeira aventura no
estrangeiro. Nessa altura já adotado legalmente a Andreia?


Já. Foi muito complicado, mas conseguimos. Um dia recebemos um postal em
casa para me ir apresentar no tribunal nesse mesmo dia. Começo a olhar
para aquilo: “Mas isto é agora! É hoje, temos de ir lá.” Fui com a Vera,
fomos para o tribunal e perguntámos: “Como é que sou notificado agora
assim para me apresentar? E se eu não aparecesse?”. “Se não se
apresentasse, púnhamos falta de comparência”. Entretanto, liguei à minha
advogada que também foi lá ter. “Qual é a melhor maneira de avançar com
este processo todo?”. “A melhor maneira de avançar é o consentimento
dos pais”. Passei-me. “Andámos aqui há tantos meses, vocês já não podiam
ter dito isso antes?”. Cheguei ao pé dos pais, expliquei-lhes tudo e
perguntei: “Vocês dão o consentimento?”. “Sim, sim, não há problema
nenhum. Eu sei que ela contigo está bem e a gente dá o consentimento.” A
advogada marcou a audiência, vieram os pais e a única coisa que o pai
biológico da Andreia disse para a Vera foi: “Nunca lhe tires o nome dela
porque fui eu que escolhi”. E pronto, mudámos os últimos dois, porque
ia mudar de família e é obrigatório mudar os nomes. E aquilo avançou.
Não percebo é porque que andei tanto tempo em reuniões, eles vinham a
casa, eu sei lá. Ela já estava connosco.

Com que mazelas é que a Andreia ficou por causa do acidente em bebé?
Ela tem 21 anos, mas equivale a como se tivesse 15, 16 anos. O crescimento é pouco, é muito pequenina, a fala ficou afectada.

O que é que ela faz?
Ela trabalha com a mãe, trabalha com a Vera, que é empregada doméstica, faz limpezas em várias casas. Ajuda a mãe.

Voltando a Espanha e ao Ponferradina.
Surgiu a oportunidade, Espanha fica aqui ao lado, o espanhol é fácil,
vamos lá. Era verão, estava um calor daqueles e eu: “Que é isto?! Isto é
demais”. Fui fumar um cigarro de surra, que era para ninguém me ver,
mas até o cigarro me sabia mal. Estava muito calor, quis ir beber uma
água, estava tudo fechado, hora da siesta. Assinámos o
contrato, televisões, aquilo parecia I Liga. Pensei que o espanhol era
fácil, mas estive seis meses para aprender espanhol (risos). Nos
primeiros meses, andava com um caderninho, uma caneta, e quando ia ao self-service
comer dizia: “Quero isto”. “Ternera”. E eu apontava, ternera-vaca. “E
isto?”. “Pollo”. “Frango”. E foi assim que fui aprendendo.

A família esteve sempre consigo?
Eles iam e vinham. Era uma guerra para a Bruna, porque ela nunca gostou
de andar de cinto e das cadeiras, vomitava-se toda, parecia que fazia
de propósito. O outro não, o outro é um paz de alma, adormecia e dizia
assim: “Ó mãe porque é que ela não se cala, porque é que vai sempre aos
gritos?” (risos).

A primeira aventura fora de Santamaria foi no Ponferradina de Espanha
A primeira aventura fora de Santamaria foi no Ponferradina de Espanha D.R.

Nessas duas épocas não jogou muito. Porquê?
Comecei a jogar, mas lesionei-me, infelizmente. Rasguei-me na perna.
Foi uma rotura forte, estive muito tempo sem jogar. Depois, recuperei,
voltei a treinar, tive de começar a ganhar o meu espaço, fiz alguns
jogos e, na fase final, foi quando joguei mais. Porque nos últimos jogos
já estávamos apurados para a fase final e o treinador decidiu pôr-me a
trinco. Como quem diz: olha estás aí, vou pôr-te aqui e vamos ver o que é
que tu dás. E joguei fácil, foi tranquilo, correu-me muito bem e o
treinador ficou assim: “Este gajo, afinal…” Estávamos a treinar para a
fase final e o treinador virou-se para o que jogou sempre a trinco e
disse: “Vês como é que ele faz? É assim que tens de fazer”. A dizer isto
para o espanhol.

O que fez?
Eu virei-me
para o meu colega e disse-lhe: “Então tu jogaste os jogos todos,
estiveste sempre bem, agora que eu fiz um jogo é que tens de fazer como
eu? Não te metas nisso, tens de fazer o que tu estavas a fazer”. A fase
final joguei-a quase toda. Não joguei o último jogo porque estávamos a
treinar penáltis e fiz uma ruptura a bater um penálti. Uma coisa fora do
normal.

Não continuou lá porquê?
Estive até
janeiro do ano a seguir. Fui embora porque mudaram de treinador e as
opções do novo treinador eram outras. Mais inteligente do que
antigamente cheguei lá e disse-lhes: “Agora é muito difícil arranjar
clube, vão ter de me pagar tudo para eu ir embora, senão fico aqui a
treinar. Vocês são obrigados a ter um médico e um treinador, se me
quiserem pôr à treinar à parte a responsabilidade é vossa”. “Nós
gostamos muito de ti, mas o treinador tem outras opções.”. “Eh pá na
boa. E o dinheiro?”. “Oferecemos isto”. “Nem pensar. Estive a fazer as
contas. Oferecem-me isto.” Era bom para mim que me vinha embora. “E
temos a fase final. Se forem à fase final eu vou ter direito a esse
prémio porque estive pelo menos seis meses aqui”. Deram-me o valor que
tinham a dar, e eu sempre na net a acompanhar os jogos. Foram à fase
final. Jogo em casa, peguei no telefone e disse: “Prepara o dinheiro e
dois bilhetes que eu e a minha mulher estamos a ir para Espanha. Vemos o
jogo e recebo”. “Não te preocupes”. Cheguei lá: “Tens aqui os bilhetes,
vais ali para os camarotes”. “Não, eu quero ir para a bancada”.
Intervalo, o gajo liga-me: “Anda lá buscar o dinheiro”. Cheguei lá
abaixo, comecei a contar: “Não foi isto que a gente acordou. Vai lá ver o
papel, ou queres que eu vá buscar o meu papel ao carro? É que está tudo
escrito”. “Eh pá, deixa-me falar. No final do jogo a gente já fala”.
Fui para a bancada ter com a Vera no final do jogo fui ter com eles e
pagaram-me. Fui-me embora.

Santamaria durante um treino do Alta de Lisboa, clube que representa há quase quatro anos
Santamaria durante um treino do Alta de Lisboa, clube que representa há quase quatro anos Nuno Botelho

O que foi fazer depois?
Depois, fiquei esse ano praticamente sem jogar, estava a treinar em
Odivelas e quem era o treinador? O Paulo Fonseca [atual treinador da
Roma], que tinha sido meu colega no Estrela da Amadora. Fiquei seis
meses sem jogar, treinava no Odivelas.

Que tal ele é como treinador?
Espetáculo. E, como pessoa, muito melhor ainda. Já quando o conheci como jogador ele tinha aquele feeling,
ao contrário de mim, que nunca pensei em ser treinador. Disse-me logo:
“Não te preocupes, treinas, ajudas aí os miúdos. Vais dando aqui uma
ajuda”. E assim foi. No ano a seguir, o Fonseca foi para o Pinhalnovense
e surgiu a oportunidade de ir para o Chipre. Mas, entretanto, não
chegou nada. Aliás, antes disso, ainda chegou o tal empresário de quem
não quero falar a perguntar se eu queria ir para a Córsega. “E
valores?”. “Eh pá eles ainda não falaram em valores mas depois eu digo
qualquer coisa”. Passado um tempo diz quais são os valores, falei com o
meu primo e com o meu tio que viviam em França, disseram que a Córsega
era bonita. Falei com o empresário “Manda lá os bilhetes”; “Mas tens de
ir à experiência pelo menos uma semaninha”; “Não te preocupes, manda lá o
bilhete que eu vou lá à experiência. Faço esse sacrifício”. O ordenado
era bom. Nunca apareceu o bilhete (riso). Não sei se era verdade, se era
mentira. Entretanto fui para o Pinhal Novo, era o Fonseca o treinador.
“Eh pá estás sem clube, vens ali para o Pinhal Novo”. E eu: “OK, tu
ajudas-me e eu ajudo-te. Ao menos estou a competir”

Como correu?
Uma vez, num jogo qualquer de treino, o jogo correu mal ou o treino
estava a correr ma,l e o Fonseca manda correr à volta do campo. E o
Fonseca quando éramos colegas ia sempre à frente a correr e dizia: “A
pior coisa que tu podes fazer a um treinador é ele mandar-te correr e tu
ires à frente sempre a rir, com alegria, a correr com alegria. É a pior
coisa que podes fazer, eles ficam fulos”.

Foi o que fez.
(Risos) Eu não gosto nada de correr, e pensei: “Estás a mandar-me
correr mas também vais ficar lixado, vou correr sempre com aquela
alegria”. Chega o final do treino e o gajo para mim: “Meu grande
cabrão… então tu vais para a frente correr?”. ”Tu é que me ensinaste
(risos)”.

Santamaria, a mulher e o filho,no dia em que este assinou contrato de formação no Benfica
Santamaria, a mulher e o filho,no dia em que este assinou contrato de formação no Benfica D.R.

E o Chipre?
O Chipre foi a aventura, porque em Portugal estava cada vez mais
escasso, as pessoas esqueceram-se que eu ainda era novo, pensavam que já
tinha muita idade.

Tinha quantos anos em 2010?
Sou de 82, é só fazer as contas como diz o outro (risos). As pessoas
pensavam que o Santamaria já era uma carcaça. O Santamaria apareceu foi
muito cedo. O ordenado não era nada por aí além, mas pronto, sempre me
falaram bem do Chipre que era um bom país para viver, em que não havia
criminalidade. Fui com o objetivo de ir depois para outra equipa com
mais posses como o Apoel, AEL, o Omonia, que são as melhores equipas.

Foi com a família?
Não, eles ficaram cá. A Vera foi lá ter duas vezes. Eu pedi duas
viagens para ela e duas para mim, mais a do Natal, para poder passar o
Natal em casa. Lá vivia com o Carreira, vivíamos no mesmo apartamento.

E como é que foi essa experiência? Ainda foram três anos.
Foram. No primeiro ano não sabia falar inglês, foi muito difícil, o
Carreira foi uma grande ajuda. Mas, pronto, eu era curioso e queria
aprender. Um dia, houve uma discussão qualquer e o meu nome estava
englobado no treino e eu pum, pum, pum a falar em inglês, nem sei de
onde é que fui falar o inglês. Depois, aquilo passou e o Carreira veio
ter comigo: “Olha que sabes falar muito bem porque tudo o que tu
disseste eles perceberam e estava correcto”. “Não sei mano, não sei onde
é que fui buscar, estava nervoso” (risos). Fiquei com quatro meses “a
arder”.

Então?
Não me pagaram, mais um clube
que deixei crédito. Depois fui para o Alki de Larnaca. Fui escolher a
casa, cheguei a um condomínio que era uma coisa fora do normal. Portões,
piscina e tal. Tinha ido ver aquilo com o Bernardo Vasconcelos. O clube
na altura dava-me 350 euros para a casa. Aquilo era um grande
condomínio com apartamentos e vivendas, piscina no meio, vivendas com
piscina… “Bernardo eu não estou aqui para pôr dinheiro do ordenado; eu
vim aqui para ganhar dinheiro”. “Não te preocupes, disseram que isto
era bom e a gente vai arranjar uma solução”. Fomos ver os apartamentos e
disse o senhor. “Temos aquele ali que é um T2, por 270 euros”. E eu:
“Xiu, esse é para mim” (risos).

Santamaria no meio do balneário da União Desportiva Alta de Lisboa
Santamaria no meio do balneário da União Desportiva Alta de Lisboa Nuno Botelho

Como correu a época?
Quando fomos para o Alki, primeiro ano, espetáculo, sempre tudo
certinho, os ordenados sempre em dia, só faltava um ordenado, que
pagavam no ano a seguir. Assim que cheguei na pré-época, em agosto,
pagaram logo esse ordenado, fomos para a Polónia. O que é que pensei?
Bem, no Chipre temos piscina, há praia, a Vera sabe conduzir, tem o
carro, vamos todos para lá. E disse à Vera: “Ficas lá nas férias,
enquanto vou de estágio de pré-época para a Polónia”. E assim foi,
ficaram lá. Os putos detestaram (risos).

Porquê?
Porque foi muito tempo e eles estavam habituados às festas de agosto na
terra, altura em que o pessoal se concentra todo. Os miúdos que vêm do
Luxemburgo e que são amigos, os de Lisboa, de todo o lado, está tudo ali
naquela altura, nas festas da terra. Só querem jogar à bola e há os
bailes. Se precisarem de alguma coisa vão ao café, pedem e depois a
gente vai lá e paga. Tudo bem que aquilo lá era muito bom com a praia e a
piscina, mas faltava-lhes qualquer coisa. E o custo de vida lá é muito
mais caro, é o dobro. Um pacote de leite normal de litro custa um euro e
os meus filhos sempre gostaram muito de leite. Foi dispendioso, mas
pronto, foi para eles estarem mais tempo comigo porque durante o ano eu
só vinha no Natal, eles estudavam cá.

Quando acaba a segunda época no Alki já sabia que vinha embora?
No segundo ano do Alki, no Carnaval já era para me vir embora.

Porquê?
Porque não recebíamos, não havia dinheiro, estava-se a dar a grande
crise e disse à Vera para me comprar uma viagem porque eu já não estava a
aguentar mais. “Estou a gastar dinheiro aqui, tu estás aí com os
miúdos, estás a gastar dinheiro, isto não vai dar. Vou agora, começo a
treinar e depois arranjo outro clube”. O treinador chegou ao pé de mim:
“Não vás, pá, a gente vai conseguir dar a volta, não te preocupes”. O
Bernardo também dizia: “Tem calma”. “Não, já tenho a viagem comprada”.
“Não, a gente dá-te o valor da viagem, mas fica cá até ao fim que a
gente vai conseguir, vamos dar a volta aos resultados e tu vais receber
tudo”. Acreditei. Fui enganado. No último dia, fui ter com o presidente:
“Então, como é que é?”. “Eh pá, a gente não pode. Tenho 500 mil euros
na conta, mas não posso mexer, está tudo congelado por causa da crise”.
“E a viagem para me ir embora?”. “Também não temos dinheiro para isso”.
“Ai têm, têm. Têm de arranjar a viagem, der por onde der.” Lá me
arranjaram a viagem e vim embora.

Sem clube, sem nada.
Sim, sem nada, sem nada.

A filha mais nova, Bruna, é guarda redes no Benfica na equipa de sub-15
A filha mais nova, Bruna, é guarda redes no Benfica na equipa de sub-15 D.R.

Como é que foi parar ao Pinhalnovense outra vez?
O presidente soube que eu estava cá, que tinha voltado e falou comigo. Depois comecei a trabalhar.

Começou a trabalhar em quê?
Numa empresa de estacionamento que trabalhava para a Emel, fiscalizava
os carros, passava multas, era um part-time. Isto pelo seguinte: o
diretor que era responsável daquilo gosta muito de futebol e fazia
sempre equipas para fazer torneios de empresas. E um dia fui lá através
de um amigo que trabalhava nessa empresa. “Podes falar com ele, ainda
por cima tu jogas à bola, é meio caminho andado. A única coisa que ele
te vai dizer é que, se ele tiver algum torneio, vai pedir-te para
jogares”. E pronto, fazia part-time, treinava no Pinhalnovense de manhã e
ia trabalhar à tarde na zona do Marquês de Pombal.

Alguma vez foi reconhecido na rua enquanto estava nessas funções?
Sim, sim.

E as pessoas ficam espantadas de o ver como fiscal?
Não, diziam assim: “Mas tu não és o…?”. “Não, é o meu irmão que é
muito parecido comigo” (risos). Mas havia pessoas que diziam: “Não, não.
Tu és o Santamaria. Mas tu…?”. “Tem de ser, um gajo tem de se fazer à
vida”. Sempre disse, tenho dois braços e duas pernas, felizmente, e
trabalhar nunca foi problema para mim, se o futebol não está a dar eu
tenho de arranjar maneira de sustentar a família, a vida continua, isto
não é uma desgraça. Depois, ainda surgiu a oportunidade do
Lourinhanense.

Como?
Ligaram-me:
“Santamaria? É do Lourinhanense. Eh pá, tu és um jogador muito caro…
“. “Sou um jogador muito caro, mas você já me apresentou alguma
proposta? Como é que você sabe se sou caro ou se sou barato?”. “Então
vou falar, vou reunir, queremos-te aqui”; “Tudo bem. Faz lá a proposta e
eu digo-te se sim ou se quero isto ou quero aquilo”. Entretant,o
fizeram a proposta. “Não quero isso. Quero isto mais isto”. Estiquei
muito a corda. Entretanto, depois, entrou o Loures também na corrida, e
com a mesma conversa. “Mas vocês estudaram todos no mesmo? Como é que
sabem se sou caro ou se sou barato?”. A mesma história: “Vou falar e
depois apresento uma proposta”.

O filho Tiago está na equipa juvenil B do Benfica
O filho Tiago está na equipa juvenil B do Benfica D.R.

Por que é que acha que havia essa ideia de que era caro? Teria a haver com o Sporting ou como Chipre?
Se calhar. Nunca cheguei a perceber porque eu não fui um jogador que
recebi muito dinheiro no futebol. Felizmente deu para viver, a minha
mulher foi mãe a 100%, deu sempre para nós vivermos do futebol.
Atualmente não dá, estou mais no futebol pelo gosto que tenho. Mas,
voltando ao Loures, eles depois ficaram de me dizer alguma coisa. Tinha o
Lourinhã e o Loures à es+era no final da época, tinha de decidir.
Preferia Loures à Lourinhã, era mais perto, a divisão melhor, estava na
2ªB. Mas ligava para o director do Loures e nada, não atendia, nem
mensagens nem nada. Até que um dia escrevi uma mensagem e disse-lhe:
“Havemos de nos encontrar, não me atende o telefone, nem responde às
minhas mensagens, mas o mundo é pequenino e a gente vai-se encontrar e
depois esclarecemos as coisas”. Nunca mais me disse nada. Já o vi, já o
cumprimentei, não o confrontei directamente. Ele foi má pessoa, porque
eu acho que quando dás a cara, dás até ao fim, ou sim ou não. Prefiro
que sejam frontais, nem que arranjem uma desculpa, mas sejam frontais.
Agora deixar de responder, não. Entretanto fui para o Lourinhã.

E?
Perguntei como ia, disseram-me que tinha de levar o meu carro e que me
davam 20 euros para a deslocação, mas que tinha de levar mais três gajos
de Lisboa. Comecei a ver e, primeira viagem, paguei a portagem. Comecei
a pensar: “Então eles vão só à pendura? Eles recebem o ordenado também.
Vou ter de falar com eles para pagarem pelo menos as portagens”. Os 20
euros de deslocação não é nada. Ajuda para o gasóleo, mas depois quando
vais fazer a revisão ao carro, esses 20 euros já foram porque já
gastaste em gasóleo. Tenho de arranjar aqui uma solução. Cheguei à
portagem, tirei o ticket e à saída: “Meninos, dinheiro”. “Dinheiro?”
“Sim, isto é um Mercedes, mas não é nenhum táxi. Vocês têm de me ajudar,
porque o desgaste do carro é muito”. “Eh pá, mas olha que eles disseram
isto, isto e isto”. “Ah é? Está bem”. Cheguei, vi o diretor desportivo e
contei-lhe o que se tinha passado. “Eh pá, então traz os recibos que a
gente paga-te as portagens também”. No primeiro treino da semana, depois
da conversa, chego lá, vejo o diretor e pergunto-lhe: “Então não tens
nada para mim?” “Eh pá, esqueci-me” “Esqueceste-te? Olha que eu já venho
escaldado de muito lado. No próximo treino quero cá o dinheiro, senão
arranco para Lisboa e nunca mais apareço”. “Eh pá, Santa, desculpa lá,
foi uma vez sem exemplo”. A partir daí, nunca mais. Gente impecável, foi
das melhores pessoas que apanhei como diretor-desportivo.

Mas não continua, e foi para o clube Alta de Lisboa, porquê?
A empresa onde trabalhava acabou e surgiu a oportunidade de ir para a
Emel, onde estou agora. Estive a tirar o curso e, entretanto, enquanto
estava a tirar o curso recebi um telefonema de um empresário, já nem sei
quem era, para ir para o norte, acho que era II Liga. “Santa, tenho uma
proposta para ti, para ir para a II Liga, precisamos de jogadores com
experiência”. “Então e o ordenado?”. “São 500 euros mais casa, mas tens
de dividir com outros”. “O quê? Tu não me fizeste essa proposta pois
não!?”. “Eh pá, mas eles não podem muito”. “Mas, olha lá, eles querem
jogadores com experiência e queres pagar esses valores? Para mim não
dá”. Entretanto, surgiu o Alta. Estava no Lourinhã e no Lourinhã a única
coisa chata era o desgaste. De verão, ainda se faz bem ainda é de dia
até tarde e está calor. Agora com chuva, às cinco da tarde já é de
noite, ir para cima, fazer viagem, vir para baixo depois do treino
cansado e não sei o quê, e levantar no outro dia para ir trabalhar,
tornava-se mais complicado. Entretanto, o Eduardo Simões estava no Alta
disse que ia falar com os homens. No ano a seguir fizeram a proposta e
fui para o Alta.

Já lá está há quatro anos.

Sim, este é o 4.º ano. Gente boa também. Clube com poucas posses, mas
não nos falta nada. E os miúdos hoje em dia não dão valor a isso. Porque
é um clube que é pobre, não paga muito, mas não nos falta nada para
treinar. O único problema que temos é que treinamos cá fora num campo
que está praticamente estragado, mas o Malveira que é o Malveira treina
na relva, mas a relva é só buracos.

A família Santamaria
A família Santamaria D.R.

Acha que a seguir ao Alta de Lisboa vai aparecer outra coisa?
Não. A seguir ao Alta o que vai acontecer é acompanhar os meus filhos, só. E muito possivelmente já quando acabar esta época.

Porquê? Fisicamente já se ressente?
Fisicamente já custa muito a recuperar. Tenho o meu trabalho que também
exigente. Quero acompanhar os meus filhos. O Tiago está com 15 anos e a
Bruna com 13. Jogam ambos futebol, no Benfica. O Tiago é juvenil e a
Bruna está no futebol feminino.

Revê-se neles?
Como jogadores, não. Não tem nada a ver. O Tiago é muito mais
tecnicista do que eu, joga fácil com os dois pés. A Bruna tem a pancada
de ser guarda-redes. Sempre gostou da baliza, não sei porquê. E foram
eles que me pediram para ir para o futebol. O Tiago desde pequenino que
estava sempre com bola, comia com a bola debaixo dos pés. Mas quando ele
começou a jogar, houve uma coisa que me fez imensa confusão.

O quê?
Isto do futebol de formação tornou-se um negócio. Os miúdos para
jogarem futebol agora têm de pagar. As escolas de formação do Benfica,
FC Porto e Sporting são um negócio. Tudo bem que têm condições para os
miúdos. Mas é demasiado; na minha altura, quando comecei a jogar não
pagava nada. Nem sequer o equipamento para casa levava para a minha mãe
lavar. E agora os miúdos têm o kit deles, que pagam, e têm de levar para
casa para lavar e trazem no treino a seguir. Pagam pelo kit e pagam
mensalidade para jogar. Isto virou um negócio. No início dizia que não
ia pagar para o meu filho jogar à bola, que jogasse e aprendesse na rua.
Mas começaram a falar comigo e entrei na realidade, comecei a ver que é
tudo pago. É uma coisa fora do normal.

O seu filho quer ser jogador de futebol?
Sim.

Isso deixa-o contente?
Agora já me deixa mais, mas eu sei que ele vai passar por muito. Isto não é fácil, é uma vida de cão, muito complicada.

E a sua filha?
A minha filha não sei porquê sempre quis ir à baliza. “Eu quero o
equipamento de guarda-redes e quero ser o nº5″. “Nº5?”; “Sim, quero ser o
5”. Porque eu sou o 5 e gosto muito do 5. Quase em todos os clubes fui o
5. Mas não sei porque é que gosto, gosto muito.

Tem algum número que recuse vestir?
Não. No Sporting é que diziam que o 7 era o número do azar. O Niculae
rasgou o joelho duas ou três vezes e era o 7. Mas nunca tive essas
superstições. Quando fui para o Ponferrada, queria o 5, mas não podia
porque era do capitão, fui o 22. No sporting nunca fui o 5. Na equipa B
tínhamos os números grandes que eram a sequência dos seniores e eu fui o
29, o 35 e o 45.

Não tem superstições?
Nem
por isso. Entro com o pé direito, agradeço a Deus sempre por me estar a
dar a felicidade de entrar em campo e espero que não me lesione. Gosto
de ir a Fátima todos os anos. Mas nunca fiz promessas. A Vera já andou
de joelhos, eu acompanho-a sempre, mas não faço isso. Houve momentos em
que estive mal, pensei em deixar o futebol porque não me dava sustento e
estive para deixar para poder sustentar a minha família.

Chegou a passar dificuldades?
Dificuldades, não, porque graças a Deus tenho a minha mulher que já
está junta comigo há muito tempo e ela é que gere o dinheiro. Se calhar,
se fosse por mim, andava aí e era um desgraçado, porque gastava
dinheiro desnecessariamente.

Nuno Botelho

Qual foi a maior extravagância que fez?
Não é extravagâncias. A gente vai jantar fora, mas vamos sempre a ver o
dia de amanhã porque pode acontecer alguma coisa. Extravagâncias não
fiz. Comprei carros, alguns carros, mas nada de especial.

E o Mercedes?
O Mercedes, tenho um 190, de 1989 que era do avô da Vera. E vou tê-lo.
Se me acontecer alguma coisa que precise de dinheiro, mais rapidamente
vendo a Megane do que esse Mercedes, porque tem um valor sentimental
muito grande, tanto para mim como para a Vera.

Se não tivesse sido jogador de futebol tinha sido o quê?
Não faço ideia. Eu nunca pensei em ser fiscal da Emel e sou. E é uma coisa que faço com gosto.

Nunca pensou no pós-carreira.
Não. Eu gostava de ficar ligado ao futebol, mas não me passa pela cabeça ser treinador.

O que gostava de fazer ligado ao futebol?
Diretor-desportivo, pouco mais. Empresário não sei, porque é muito
difícil ser empresário. Eu compreendo a parte dos empresários porque o
empresário só vive do sucesso do jogador, se o jogador não tiver
sucesso… Mas acho que há aí muito empresário que… Para já. começam
muito cedo, os miúdos com 13, 14 anos, já andam atrás deles. Ninguém
sabe quem é que vai ser jogador, pode ter ali um talento mas pode estar
mais maturado do que os outros, por isso sobressai mais do que os
outros. Mas depois chega a fase das namoradas, que é uma fase
complicada. Deixar a namorada para ir para o treino não é fácil.

Aconteceu-lhe.
Muitas vezes. Comecei a namorar com a Vera aos 13 anos, ela ficava e eu
tinha de ir para o treino. Aliás, depois de uma certa idade era aquilo
que eu queria e sempre disse à Vera: “Nunca penses em encostar-me à
parede para decidir entre ti o futebol, porque o futebol vai ganhar. É
isto que eu quero para a minha vida”. Já fiz essa pergunta ao meu filho,
que agora começou a namorar. “É isto que tu queres? Atenção que vais
perder muita coisa. Já viste que nunca tens tempo para ir às festas de
anos dos amigos da escola, estás sempre em treinos, em jogos, em isto e
aquilo”. E ele disse-me que o que ele quer é o futebol. Eu não o obrigo a
nada. Ele é que vai decidir. No dia em que se sentir mal fala comigo e
sai do futebol. Messis e Cristianos Ronaldos só daqui a 20 anos é que
vão aparecer outros.

Sente que passou ao lado de uma grande carreira?
Fiz se calhar as opções que não foram as mais indicadas.

Quais?
Se calhar essa da Roménia, em que optei pela família em vez de futebol. Se calhar era uma boa opção.

Então o futebol não ganha sempre…
Mas isso foi mais tarde, já era casado, já tinha filhos, já tinha
outros compromissos. Agora é diferente, penso muito mais na família do
que no futebol. Desde que fui pai tenho que me preocupar muito mais; se
der para conciliar as duas coisas muito bem, mas tenho que me preocupar
mais com a família. Está bem que o futebol dá-me sustento, mas a alegria
de estar com os meus filhos é muito maior, é diferente. Sempre escolhi o
futebol, mas agora escolho a família.

Deixou de ir à seleção depois dos sub-21. Sabe por que não voltou a ser chamado?
Porque havia outros jogadores que jogavam a um nível mais alto do que eu e tinham mais qualidade.

Qual a maior alegria e a maior frustração do futebol?
A maior alegria foi-me ter estreado pela equipa principal do Sporting e
de ter sido internacional, mesmo de sub-15. No Estrela da Amadora tenho
uma alegria enorme porque, duas semanas depois do meu pai falecer,
fomos jogar ao Boavista e a maneira que encontrei para me tentar
abstrair das coisas foi ter havido um penálti a nosso favor que ninguém
queria marcar e eu, que nunca marquei penáltis, disse: “Dá cá a bola, eu
marco”. Acho que estavam jogadores à entrada da área virados ao
contrário caso a bola falhasse para não haver contra-ataque. Deu-me
aquela coisa e fiz golo.

O seu pai faleceu como?
De cancro nos intestinos. Fartou-se de trabalhar a vida toda e a minha
mãe também. Na altura em que a empresa fechou, ele tratou dos papéis
para a reforma e assim que o faz descobre que está doente. O meu pai
morreu com 52 anos acabados de fazer. Ele descobre em Agosto, faz anos
em outubro e morre em dezembro. Uma coisa fora do normal. Em agosto
estava no norte, a chegar à praia fluvial com a família, com os meus
sogros, avós, o telefone toca e a minha mãe disse-me que o meu pai
estava no hospital. Vim logo para baixo e nunca mais voltei àquela praia
fluvial. Foram fases muito complicadas, ver a degradação dele, a ficar
mais magro… Curiosamente, um dia antes de morrer, levantou-se, comeu,
tranquilo, parecia que estava melhor. E, no dia a seguir, morreu. Como
conhecia uma pessoa nos serviços do Santa Maria, consegui entrar nos
cuidados intensivos. Falei com ele, não sei se me ouviu ou não, mas
disse tudo o que pensava.